As minhas Personagens...

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Todos os dias me engano...

Saí do trabalho. É noite.

Olhei em frente. Para um lado. Para o outro...
Saí da entrada daquele prédio, belo...
Daquele sítio alto... que outrora, de perto, já viu o mar.
E sem rumo, mas com vontade...
Andei pelas ruas do Rossio...

Todos os dias me engano, todos os dias me traio
Por não usar o que me deram e que nem todos têm,
Por não me deixar apaixonar pelo que amo em segredo
E que sei que todos querem.
E assim, vivo cada dia... Enganada.

Enquanto desço a rua
Começo a cantar, porque o que amamos
Não podemos negar.
As pessoas fintam-se, olham-se...
Re-olham-se, tresolham-se...
E voltam a olhar.
Eu olho... sinto,
Deixo-me apaixonar...
Porque se posso olhar, vejo.
E se posso ver, reparo.
Como me ensinaram num livro.

Caminho; pé na diagonal do outro...
Postura firme, costas direitas...
Penso na próxima rua... E sinto receio.
Abrando. Acobardo, como sempre.

Ouço as vozes trocadas e musicas da rua...
Fecho os olhos.
Continuo de olhos fechados a caminhar...
E descendo a Garrett, recomeço a cantar.

A calçada é inconstante e torna a minha voz
Não tão boa, mas eu canto... para mim.
A vontade cresce e o peito do lado esquerdo
Sente um quente...
E num salto, começo a correr!
Corro pela Do Carmo abaixo...!
Já lá não está o carro verde que de dia nos dá fado.
Enquanto corro, penso de novo no que quero...
E tenho medo de fazê-lo...
Chego ao grande largo...
Atravesso-o num passo apressado...!
Quase que choro de emoção, pela musica que tenho no coração.
E que todos os dias sinto que traio por não a sentir...
Mas hoje vou senti-la e abraça-la..., aquela que amordaço
Entre as cordas vocais.

Corro!
Chego à De S. José...
E lá está ele.
Canta com vontade, não se trai. Abraça a sua paixão.
Todas as noite canta, acompanhado pela sua guitarra.
Deixei-o terminar.
Dirigi-me a ele... com medo.
Frente a frente, disse boa noite.
Perguntei se aceitava que cantasse com ele.
Fez-se rogado...
Disse-lhe que nada pretendia em troca a não ser o seu sim.
E que se ele recebesse dinheiro enquanto eu ali estivesse,
Ficaria contente por ajudá-lo assim...
Aproximei a minha voz do seu ouvido e cantei.
Para que visse que era capaz.
Perguntei-lhe se me deixava cantar Amália...
Ele escutou...
E os meus olhos devem ter feito algo, que ele viu, mas que eu não vi...
Porque ele disse que sim e deixou-me agarrar no seu microfone.
Falei-lhe de uma música que falava de Lisboa...
E começou a tocar na sua companheira...
(...)
Era tarde para amordaçar de novo a voz.
A cobardia lutava com a vontade.
E trémulas as minhas mãos, não pequenas, seguraram firmemente no que
projectaria a minha voz por aquela rua longa...
E cantei...

«Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.»

E nesta primeira estrofe,
As gentes de cá e de lá,
Ouviram o que o meu coração tinha a dizer
E que a minha razão quis esconder...

«Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.»

Emocionada sorrio a cantar
Com esta música tão triste.
Porque o fado tem um encanto
Que os que o amam sentem...
E uma felicidade que é escondida
Na sua tristeza tão bela.

A emoção da sua tristeza,
Transbordou pelos meus olhos
E os meus olhos fechados brilharam.

«Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.»

As gentes de cá e de lá
Reuniram-se à nossa volta
E as minhas cordas vocais vibraram,
A minha voz voou pela calçada portuguesa,
Como uma ave selvagem que é solta da gaiola.
As pessoas escutaram,
cantaram... Sentiram.
E a rua tornou-se pequena e quente.
E terminamos assim:

«Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.»

E calei a voz.
A guitarra continuou...
O meu coração, sem espaço para bater,
ouviu as palmas... E sem esconder,
Sorri com lágrimas.
Batemos palmas...
As mãos suadas e frias
Devolveram o microfone do Senhor.
Beijei o artista.
Agradeci.
Segui calada,
Com a minha voz de novo cerrada.


Eu

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Planeta Terra, Portugal
Para quem visitar o meu espaço, não se esqueça que o último texto da página foi o primeiro a ser colocado e que entre os primeiros e últimos textos, há sempre uns pelo meio... Digo isto porque quando leio um blog, tento perceber se há algum texto que me agrade, sem deixar que os primeiros, os últimos ou os do meio me repulsem... Aqui, há textos para todos os gostos.